terça-feira, 29 de maio de 2012

Cérebro e mente


Descartes, matemático, físico e pensador francês, em suas obras instituiu o conceito que mente e cérebro são coisas separadas, constituídos de matérias distintas e regidos por leis distintas. Sendo o cérebro uma espécie de hardware, um disco rígido que contém toda a memória e os circuitos que permitem processar os sinais externos e transformá-los em ações ou outros pensamentos, e regido pelas leis da física. Já a mente seria algo etéreo que não ocupa espaço nem obedece as leis da física. Ou seja, algo não tocável, algo impossível de ser contactado pela ciência ou algo que possa ser localizado no cérebro. E essas “leis” da separação entre cérebro e mente vigiram por quatrocentos anos enquanto a ciência, pacificamente, aceitou o conceito proposto por Descartes.
Já no século dezenove, a medicina mapeou toscamente o cérebro e determinou categoricamente que ele era composto por “zonas” funcionais e que estas correspondiam rigidamente a partes, órgãos ou membros do corpo, esse conceito foi chamado de localizacionismo. Assim, se houvesse lesão na zona correspondente à mão direita, por exemplo, esta deixava de funcionar. Ainda mais, definiu-se que o cérebro era uma “caixa preta” que não se regenera, sendo que depois que completa seu crescimento aos seis anos de idade, torna-se uno e acabado de forma a não sofrer transformações e adições, e passando a perder massa depois dos quarenta anos.
Corroborando o que já se aventara no século dezenove, no início do século vinte, o neuroanatomista e prêmio Nobel Santiago Ramón y Cajal aderiu à tese que o cérebro, ao contrário, de tecidos e órgãos, era incapaz de se regenerar. Dado a proeminência de quem falava ficou patente que essa era uma verdade incontestável. Sabia-se que milhões de neurônios morrem à medida que envelhecemos, enquanto outros órgãos constroem novos tecidos a partir de células tronco, e que essas células não eram encontráveis no cérebro. Segundo supunha-se, a explicação para essa ausência de células tronco se devia ao fato que o cérebro era ultra especializado e extremamente complexo de forma que perdeu a capacidade de produzir células de reposição. Supunham os cientistas que um “neurônio novo” não poderia assumir a função de outro já degradado em razão deste ter milhões de conexões com seus pares e constituir uma “peça” especializada que levou anos para se formar, daí ser impossível substituí-la, a “peça nova” ficaria sem função, algo assim como substituir um cientista falecido por uma criança sem qualquer noção. Ramón afirmou que num cérebro adulto as vias nervosas são fixas, concluídas e imutáveis. Os neurônios que morrem não podem ser substituídos e nada se regenera.
Só que em 1965, cientistas do MIT (Massachussetts Institute of Technology) descobriram células troncos nos cérebros de ratos. Chamaram sua descoberta de células tronco neuronais. Em 1980, ornitólogo Fernando Nottebohm, notou que certas aves canoras mudavam ou melhoravam seu repertório de cantos a cada primavera, e isso era intrigante. Feito a dissecação dos cérebros dessas aves ele notou que haviam adquirido novas células neuronais responsáveis pelo canto. Daí, outros cientistas, considerando que cérebros são cérebros, independente se são de aves ou de humanos, puseram-se a examinar cérebros de primatas e, como era esperado, encontraram as células-tronco neuronais já encontradas em ratos.
Com a continuação das pesquisas foram encontradas células-tronco neuronais ativas no bulbo olfativo, no septo e medula espinhal humanas. Essas descobertas estabeleceram que, ao contrário do que se admitia antes, o cérebro é plástico, ele tem capacidade de recuperação e reposição de massa perdida. A plasticidade substituiu, portanto, a rigidez até então admitida. Dissecações de cadáveres humanos recentes mostraram neurônios novos mesmo em doentes terminais de idade avançada. Era a prova definitiva que o cérebro tem capacidade de reposição de massa perdida.
Estudos mais recentes também derrubaram o localizacionismo, quando o cérebro perde alguma parte por acidente ou doença, outra zona, geralmente localizada nas proximidades, assume a função da área perdida. Existe um caso excepcional de uma mulher de Falls Church, Virginia, EUA, que nasceu só com a metade direita do cérebro e esta “assumiu” as funções do lóbulo esquerdo de forma que Michelle, esse é seu nome verdadeiro, hoje com quarenta anos, é uma pessoa quase normal com relação à inteligência, capacidade de ganhar a vida com seu trabalho e atividades do dia-a-dia, conseguiu até formar-se num curso superior.
Além dessas constatações, a ciência descobriu que nosso cérebro também se modifica a partir do uso, quanto mais o usamos mais ligações se constroem entre os neurônios. Isso quer dizer que, mesmo adultos e até idosos, têm seus cérebros modificados pela utilização. Nossa cultura modifica o cérebro tanto quanto este modifica a cultura. Homens de tempos anteriores à era industrial que não conheciam carros, aviões, foguetes espaciais e informática tinham um cérebro muito diferente (fisicamente) do nosso que somos obrigados a lidar com essas informações virtualmente novas. Em consequências dessas descobertas fica, portanto, abolido para sempre o conceito cartesiano da separação entre cérebro e mente. JAIR, Floripa, 26/05/12.     

domingo, 27 de maio de 2012

Sandice

Dia ainda, mandorovás e tainhas liderando multidão de outros calembures, disputando atenção de teocráticos e berrantes, nada diferente das demais manhãs que precederam aquela. Nenhum néscio iria perceber a borduna e o alumbramento que, normalmente, acompanham os desbordes alternativos de campanha tão trápica. Estávamos na era dos prebócides e das vespas segmentadas, o mundo já se acostumara observar catadupas e vórtices oriundos, dizem, da obliqüidade da elíptica. Então, por mais que tudo parecesse presbítero ou arcano, não havia porque sibaritas de outras plagas adelgaçarem o fino tecido epitelial da abordagem endogênica pelo simples prazer da inutilidade ibérica dos costumes bastardos e já quase esquecidos no fundo do baú da necedade.
Balestras acúleas, tradicionais em quase todos os continentes, nada significam se não forem acompanhadas vis-à-vis de hospedeiros heterodoxos, mesmo que incorram em dispêndio anular de bancarrota ignomiosa. Sabendo-se que depois de tudo, polímatas e papalvos se encontrariam no ignoto, cientes de suas conexões prismáticas únicas no universo conhecido e até desconhecido talvez. O declínio dos filactérios edênicos era outra preocupação inerente, nada do que se fizesse em razão das alabardas e dos uzbeques parecia se interpor entre aquilo que era esperado e o declínio potencial da Habillié mal formada por falta de Sponsor reconhecido pela Intelligentsia responsável e reconhecida pelo poder absoluto que se pressentia no horizonte de eventos.
Mais que a tradicionalíssima Ouverture, era de se esperar empenho máximo dos que labutavam abaixo da linha de cosméticos, alguma luz no fim do túnel do carpo, nada excepcional, portanto. Na Trácia, local avesso a conluios viáticos, propagava-se quase à luz do Sol, que se avizinhava o mais recôndito e aprazível endosso sistemático de brasões e congêneres. Era crucial que se tomasse por favas contadas tudo que dissesse respeito às ingerências estapafúrdias dos assim chamados pavões descoloridos de cauda cinzelada. Se assim fosse, tudo estaria definitivamente perdido para àqueles que desalinharam a Vaterland, obviamente ignorando as origens escusas dos membros seniores da alta satrapia forense subalterna. Ninguém se eximiu de apontar o dedo, nem sempre honesto e imaculado, para o fulcro do problema que obstruía os canais lacrimais que todos tinham, mas teimavam em não admiti-lo.
O equilíbrio do Universo peculatário não estava exatamente ameaçado, contudo, ainda que prímulas hortenses tenham sido detectadas no átrio da metonímia, nada poderia mudar o estado latente de tensões pré mencionadas nos anais díspares da Dolce far niente esperada para o próximo lustro. Até monastérios antes considerados imunes ao contágio expiatório, já se propunham a alastrar ditames e cordéis entre o populacho lascivo das outrora priscas vertentes janízaras da Abissínia. O mundo se convertia a olhos vistos às inferências atiladas dos moluscos bosquímanos nem sempre tão simétricos e tão pouco verazes. Dia após dia, muares combinado sua acurácia ao bom senso ditirâmbico de jacus rabudos tupiniquins, promoviam disparates que não ajudavam em nada o já deteriorado metrônomo das visões místicas noturnas.
Vítimas da obsolescência vertical dos módulos adriáticos, uns consolavam outros na falta de eflúvios benéficos na ordem das coisas imagéticas. Havia esperança é claro, a Turíngia já apresentara em duas ocasiões distintas a Soi-disant que deveria colimar efêmeros e dissidentes dos austrais até o mais ínfimo restolho. Ainda mais, levidade e sutileza eram obróbios válidos se não houvesse necessidade de alavancar céspedes e vênulas sapientes em todo território vernacular das centúrias palacianas e até no capitólio de ventos alísios.  Ainda que individualmente fizesse sentido aprazar mais verrumas para sancionar os trejeitos estentórios que vaticinavam mais abalos sistêmicos, não havia necessidade de alavancar tais cornucópias holísticas se realmente viesse a transposição corpórea, nessa altura quase um acontecimento compulsório, não tenhamos dúvida.
Touché, poderiam os galecistas arriscar depois da derrocada tectônica que certamente o Planeta esperaria em razão do sectarismo faustoso que buscasse vênia nas platitudes. Santa paciência! Ninguém estaria estiolado a ponto de vergastar lâmias e menestréis no caso de derretimento da calota craniana, isso é um fato inoculto. Confrarias efusivas passaram a coser miçangas alucinógenas nas barras dos riachos borrascosos, viam nos parênquimas algum fútil retardo metalífero provavelmente eremita, não se sabe ao certo. Tudo girava em torno das commodities, mais uma vez terçadas de escorbuto bivalve, então para que versar? Mesmo que outros fulcristas enovelem lemingues e não se atenham ao que poderia toldar a partogênese, não sejamos ingênuos, Torquemada é apenas um nome, nada a retrever sem demora.
Clastros se fizeram ao mar, dizem, depois da manifestação telúrica que abravendou as vinhas do Lesoto, não sabemos ao certo, mas muitos conciábulos surgiram após o fato inusitado. O governo trifásico convocou bonifrates e multipolos para a avença sensorial que se propunha impregnar o laboide da periferia. Nada sobrou depois dessa manifestação tão escrutinosa de sapiência constipatória, valeu a intenção dos verbenos, penso.  Ligamentos fisiológicos atenuantes deveriam ser levados ao escárnio da verve ululante, só assim faria sentido abramir os eventos posteriores, mais muitos não acreditavam em ditames aberrantes, até porque já estavam carpados de esperar vigotes brâmicos, é uma pena porque nada sobrou depois da peralvia.
Nesta ocasião a Gestalt dos novos girinos perfaziam a totalidade das monções vindouras, ainda que isso significasse um quase retorno à total ausência de Degradé aviltante da mais baixa ordem. Que fazer, não é mesmo? Tríduos Appartachic eram apenas mais uma ordenança fragilíssima frente ao desencadear de emoções ferinas dos que ignoravam a cerca do Shiatsu imposto a ferro e fogo àqueles que não concordassem com o alumbramento discórdio das aves marinadas. Imaginemos um oceano de logomarcas peleando os menores rapunzéis permeados de flicts (lembrando Ziraldo), que se ecomeassem, não pela pele pálida, mas pelo sânscrito inaudito de suas verborréias quase indecentes e fátuas. O mundo seria bem melhor para quem aplastasse tais semânticas velhas, porém boas.
Isso é quase uma via de mão única para abstinência de flatos ostentatórios que conduzem à bizarria, o mais das vezes. O tempora, o mores, como seria vértico e muito mais sobreiro se neste Planeta percóstico tivéssemos um mínimo de soluções escolásticas tradicionais em vez de sóstenes e arbítrios que visam apenas proçar têxteis novéis. Em Sotto voce. Floripa, 25/01/12

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Black boy


A planta “Black boy” australiana, na verdade é uma espécie só encontrada naquele país, a Xanthorrhoea Australis. Ela é um vegetal que os povos aborígines têm usado para fazer suas lanças desde que o mundo começou, segundo eles, há milhões de anos atrás, período que eles chamam de dream time, na falta de como nomear o passado distante. Quando a planta torna-se adulta, uma grande haste sai do topo, onde surgem milhares de flores que irão gerar muitas vagens. Essa haste é colhida e endurecida no fogo para ser transformada em lança com a qual os nativos caçam marsupiais e répteis e arpoam peixes em águas rasas.
Comumente chamadas de árvores grama, Grass tree, nome inapropriado porquanto não são árvores e sim arbustos, as plantas Xanthorrhoea também são conhecidas como balga pelos aborígenes, que é o termo da língua Dyirbal para menino negro, Black boy. Os aborígines provavelmente chamam esses arbustos de balga, porque depois de um incêndio, evento bastante comum naqueles semi desertos onde as plantas crescem, as folhas inferiores queimam revelando um tronco chamuscado preto com as folhas verdes em forma de capim que se estendem a partir do topo do tronco dando a aparência de criança aborígene segurando uma lança. De longe os troncos podem parecer troncos de xaxim, mas é engano, enquanto ao toque o xaxim é macio, os troncos do Black boy são duros como madeira.
Estive fazendo trilha numa ilha da costa leste, onde belos exemplares, veteranos de muitos incêndios provavelmente, podiam ser vistos elevando sua lança com tufos de flores de quatro a cinco metros de altura. Os tufos podem conter milhares de flores individuais e variam muito em tamanho. Tentei trazer algumas sementes, mas, parece, não eram férteis, deixaram de eclodir quando plantadas no meu jardim.
Os troncos enegrecidos podem ramificar uma ou duas vezes para formar cabeças compostas, mas mais usualmente é um único tronco com haste também única que ostenta uma “saia” de longas gramas como folhas de até um metro ou mais de comprimento. Imaginemos um xaxim com uma touceira de capim no alto, ao invés de folhas de samambaia, assim é essa estranha planta. As longas e estreitas folhas duras crescem de uma maneira aglomerada na parte superior do tronco de maneira a se tornar pendentes na medida em que se tornam mais velhas, de modo que o efeito é de tufos de relva na parte superior do tronco. O gênero está relacionado com os lírios, mas a maioria dos botânicos prefere colocá-lo em uma família separada, Xanthorrhoeace.
O nome científico é derivado do grego, o termo xanthos (amarelo) e rheo (fluxo) refere-se à goma amarelada que normalmente exuda das plantas. Essa goma é amplamente utilizada pelos aborígenes para fixar as pontas de suas lanças, e foi usada pelos primeiros colonos brancos como uma laca impermeabilizante substituta e verniz de grande durabilidade e bela aparência.
Grass trees são encontradas em quase todos os Estados da Austrália. Há um total de quinze espécies, sete das quais são encontradas na Austrália Ocidental. Como eu disse acima Grass tree é realmente mais uma planta lenhosa do que uma árvore. A sua vida útil foi calculada em 600 anos, mas pode ser ainda mais, visto que não desenvolve anéis de crescimento, então sua idade tem sido estimada através de outros testes menos confiáveis. Seu crescimento é muito lento, o tronco leva uma década ou mais para formar uma vez que é composto de uma massa de folhas soldadas por resina natural da planta.
O tronco em si é oco com uma espessura de parede de quinze centímetros aproximadamente, deixando um centro destituído do material que forma suas paredes, o diâmetro do tronco pode ser de até meio metro. O sistema radicular é como capim, raízes individuais de até cinco milímetros de diâmetro, e seu grande número ajuda ancorar a árvore firmemente no chão. Coisa estranha, o tronco oco é preenchido por material fibroso que liga a parte superior crescente com sua fonte de alimento, as raízes. Contudo, artesãos habilidosos conseguem fazer belíssimos e criativos vasos com partes desse tronco pouco comum.
Não bastasse tais estranhezas, a Black boy é uma sobrevivente da flora, assim como o crocodilo e o celacanto são sobreviventes do reino animal, essa planta vive na superfície do planetinha azul há mais de trezentos milhões de anos. Considerando que a cada quatorze milhões de anos a flora é substituída por novas espécies que surgem, a Grass tree ultrapassou a idade de aposentadoria há centenas de milhões de anos. Há registros fósseis provando que essa planta existia no tempo da Pangéa, nome que a ciência deu ao supercontinente que precedeu o atual leiaute das terras secas no Planeta.
Pois é, minha disposição em pesquisar e escrever sobre a Black boy está relacionada ao fato que importei quinze sementes e estou tentando desenvolver algumas mudas para plantar aqui no Patropi. JAIR, Floripa, 07/03/12.

terça-feira, 22 de maio de 2012

As coisas como são



Na maior parte do tempo nós, as pessoas comuns, observamos à nossa volta e externamos o que gostaríamos que fosse diferente, o que gostaríamos de consertar, mais ou menos assim: “seu eu fosse presidente...”, “se eu pudesse...”, “se dependesse de mim...” e por aí vai. É claro que esse é apenas um exercício mental retórico para discordar do que não nos agrada, é apenas a verbalização do que nos vai por dentro, mas não quer dizer que realmente faríamos aquilo que dizemos. Nossa discordância em geral se expressa na forma de como poderíamos transformar para melhor algo que dista daquilo que achamos ideal, normal ou desejável.
Na maior parte do tempo o que nos cerca – sejam objetos, procedimentos ou fatos - é resultado da cultura, dos comportamentos e das escolhas as quais estamos imersos; é o somatório de tudo que se inventou, descobriu, aperfeiçoou, transformou ou aproveitou da natureza. Nada do que nos cerca, seja aprovado ou não por nós, está aqui de graça, ou seja, nossa sociedade somos nós no sentido que a construímos como nossa cara coletiva, por assim dizer. A sentalidade da sociedade dá feição à cultura na qual está imersa.
Também é uma característica do ser humano gostar de certas coisas, agradar-se mais disso ou daquilo, fazer comparações destas com aquelas particularidades, estabelecer uma hierarquia do valor ou da necessidade das coisas. Assim, de modo implícito, “aprovamos” umas coisas em detrimentos de outras. Além disso, a complexidade de seres pensantes e críticos que somos, é produto das infinitas combinações do ambiente cultural no qual nos formamos, com nossas heranças genéticas e educação familiar que nos constrói uma personalidade única, diferente de todas as demais. Cada pessoa é singular e, portanto, reage ao mundo à sua maneira.
Pois então, é reagindo ao mundo à nossa volta que o modificamos, quer alterando o ambiente ao nosso talante, quer manifestando comportamentos próprios – não necessariamente originais ou estranhos - que se incorporam ao comportamento coletivo criando costumes imitados por outros. Assim, podemos lembrar que os “formadores de opinião” são aqueles que, seja pelo comportamento atípico, seja por uma personalidade dominadora ou por possuir meios adequados para esse fim, influem nas “massas” que os observam. Cantores, escritores, blogueiros, jornalistas, apresentadores de televisão, políticos, artistas, professores, empresários e tantos outros, em geral têm oportunidade de externar opiniões de forma a influenciar o público. Essa maior ou menor influência, em longo prazo, forma referência cultural que modifica comportamentos e o próprio “andamento” da civilização. Neste exato momento estamos sendo influenciados por tudo que nos cerca e influenciando, em maior ou menor grau, nosso ambiente. 
Essa inter-relação pessoa ambiente é que torna o que chamamos de cultura algo dinâmico, vivo, em movimento constante, tanto horizontal na linha do tempo, quanto vertical no sentido que as coisas de amanhã são a soma do ontem com as incorporações que se fizeram hoje, de modo que não há mesmice nem repetições monótonas. A civilização é evolução no melhor sentido, sempre para frente sem esquecer o passado, pois este serve de referência, ainda que o objetivo seja o aperfeiçoamento futuro. A civilização é o “empilhamento” de saberes e conquistas por nós efetuadas ao longo de gerações, a civilização é um quadro animado que reflete nossas escolhas como espécie e como comunidades. Esse quadro animado semelha-se a um caleidoscópio que a cada movimento, a cada átimo de tempo, enxergamos um momento diferente das coisas que o compõe. As “coisas”, no sentido lato do termo, são o que são porque não podem ser diferentes, nós assim as construímos. Somos agentes e receptáculos culturais de nossas ações desde as mais imperceptíveis e corriqueiras que dizem respeito ao dia-a-dia de cada um, até os grandes feitos e conquistas portentosas que afetam toda a humanidade ou a história desta.
Ou seja, para milhões de opções que poderíamos ter escolhido, optamos por estas que nos cercam, de maneira que vivemos no melhor dos mundos escolhido por nós, então, como espécie e como sociedade não temos do que reclamar, nossa civilização é produto de nossas escolhas. JAIR, Floripa, 22/05/12. 

domingo, 20 de maio de 2012

Comida


Nossos filhos são mais altos que nós. Essa constatação sem qualquer respaldo estatístico pode ser verificada praticamente em qualquer família com filhos adultos ou adolescentes. Não conheço nenhum estudo do IBGE ou de outro órgão oficial brasileiro que comprove definitivamente o que afirmo, contudo, nos anos cinquenta do século passado, nos EUA, fez-se uma comparação das alturas da geração nascida depois da guerra com a da pré guerra e ficou patente que a geração mais nova estava crescendo.  No Japão do pós guerra também se verificou que a geração nascida nos anos cinquenta estava apresentando altura de até oito centímetros, em média, maior que a anterior. No caso do Japão, o crescimento da nova geração chamou mais atenção porque os japoneses eram, (ainda são, mas a diferença diminuiu) na média, mais baixos que as pessoas do ocidente desenvolvido.
No Brasil de hoje até a média das seleções de vôlei e basquete cresceu. Há trinta anos as seleções eram seis centímetros mais baixas que as atuais. Então, a despeito de serem raros e não conclusivos estudos oficiais comparando as estaturas das gerações, a diferença existe. Pergunta-se, portanto, a que se deve esse crescimento? Resposta curta e grossa: comida. Pois é, quando falamos de estatura é impossível fugir de assuntos relacionados com a má alimentação e a desnutrição das crianças, algo que indicadores do IBGE relacionados à população infantil brasileira já diagnosticava na década de setenta.
Tenho sessenta e seis anos e quando minha geração nasceu a comida que se punha à mesa não vinha de grandes supermercados com disponibilidades quase infinitas de ofertas. Comia-se o que o armazém da esquina e as raras feiras livres vendiam. Pequena horta doméstica e uma criação de galinhas complementavam o que o armazém oferecia aos fregueses. Mesmo famílias mais abastadas não tinham opções onde suprir-se em variedade e abundância, apesar de não lhes faltar nada à mesa, a variedade não era muito superior a do pobre. E, comparativamente, os gêneros eram mais caros que nos dias atuais.
Meus filhos são cinco centímetros mais altos que eu. Quando eles nasceram foram alimentados com papinhas e comidas infantis inexistentes na minha infância, e a orientação alimentar que receberam facultou-lhes, quando jovens, serem mais seletivos quanto aos melhores e mais nutritivos alimentos disponíveis. As informações que minha geração dispõe também são muito maiores do que as que meus pais dispunham, de modo que, além do acesso à abundância, a qualidade do alimento de meus filhos também foi melhor e mais equilibrada. Daí, o crescimento passa a ser uma consequência natural.
Contudo, lembremos que a estatura das pessoas e de quaisquer seres vivos está contida na herança genética, então o fator crescimento não pode ser subvertido a não ser em casos patológicos. Como se explica o crescimento pela melhoria da alimentação, portanto? Simples, se estivermos “programados” geneticamente para termos certa altura significa que nosso organismo tem o potencial para crescimento, e não que seremos daquela altura, se faltar alimento seremos mais baixos. Assim, provavelmente, a geração da qual faço parte poderia ser mais alta se estivesse se alimentado adequadamente, como isso não ocorreu somos menores do que o programado. Consequentemente, se a alimentação encontra-se em déficit, a estatura das crianças e dos jovens é baixa. Porém, no decorrer dos anos os índices antropométricos de desnutrição e baixa estatura diminuíram por conta da melhora na qualidade de vida da população em geral.
De acordo com pesquisa do IBGE de 2009, os dados indicaram um aumento significativo no peso e estatura das crianças e tudo isso acontece por conta do acesso mais fácil à alimentação. O estudo revelou que as crianças e adolescentes brasileiros estão chegando cada vez mais próximo ao padrão internacional padronizado pela OMS.
Já, um país como os EUA onde se come muito e alimentos de alto teor calórico sem muito critério seletivo, a população provavelmente já alcançou todo o crescimento possível codificado em suas programações genéticas. Não é de estranhar, por consequência, que ao invés de crescer para cima os americanos do norte estejam crescendo para os lados, pois sabe-se que de cada três deles dois estão acima do peso, estão acometidos de obesidade mórbida. Esse é o recado que a natureza nos dá: coma bastante, mas não exagere, seu crescimento poderá continuar, mas em outro sentido e com resultados nefastos. JAIR, Floripa, 16/05/12.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Oblivo


Havia sido concebido em Israel, num Kibutz fundado por deslocados de guerra oriundos da Bucovina. Seus pais fugiram do país quando tropas nazistas, que já haviam batido os restos do exército romeno que lutara bravamente, mas sem eficácia, resolveram aplicar as leis do extermínio sobre os poucos judeus que ainda restavam nas aldeias pobres e arrasadas. Com auxílio de cidadãos bucovinos cristãos, Yacov Stein e Marta Stein conseguiram embarcar num transporte que os levou até Stambul e de lá, depois de muita emoção e perigo, conseguiram chegar a Benghasi na Líbia, onde após de alguns meses saíram para Londres. Viveram em Londres até o fim da guerra, donde saíram para Israel e o Kibutz, e, quase de imediato, para o Brasil, país escolhido aleatoriamente num mapa mundi. Até hoje é um mistério como aqueles dois judeus deslocados vieram parar em Palmeira, cidade onde não havia ninguém que professasse o judaísmo.
O filho do casal nasceu logo depois da chegada deles, Marta já estava grávida quando vieram para a cidade clima. Porque lhe colocaram o nome de Oblivo nunca perguntei, embora fosse nome um tanto exótico, não me parecia correto ficar xeretando o assunto. Até porque existiam muitos nomes pouco usuais no círculo de meus conhecidos de forma que Oblivo era apenas mais um.
Minha família morava, desde o fim dos anos quarenta, numa propriedade da empresa madeireira dos Malucelli na qual meu pai trabalhava. A casa se situava do outro lado da rua em que se situava a fábrica, aliás todo o lado oposto à fábrica era uma “vila” de casinhas iguais onde moravam os operários. Lá passei minha infância.
Seu Jacó, como chamávamos o pai de Oblivo, também era operário na madeireira. Humilde, discreto, bastante inteligente, seu Jacó tinha um forte sotaque que nós costumávamos nomear como “de polaco”. Os polacos eram abundantes na zona rural da cidade e muitos viviam e trabalhavam nas indústrias madeireiras, mas a maioria era composta por pequenos colonos que costumavam vender seus produtos nas feiras, por isso conhecíamos bem a maneira como eles falavam. Os poloneses e seus descendentes tinham dificuldade de pronunciar o “r” forte de “carro”, por exemplo, neste caso diziam “caro”, e em todas as pronúncias fortes do erre era a mesma coisa. Pois bem, seu Jacó falava com sotaque peculiar, desse modo, dona Marta e Oblivo também, embora este tivesse adquirido o sotaque por exposição e não de nascença.
Oblivo e eu éramos (ainda somos) amigos, daquele tipo que as pessoas costumam chamar de inseparáveis. Desde que me lembro sempre fomos vizinhos de rua, brincávamos juntos e costumávamos estar sintonizados em tudo que fazíamos. Não havia necessidade de combinar, “amanhã, as tantas horas!”, sempre um ia à casa do outro ou os dois se encontravam na rua sem ter previamente combinado. Ele era em tudo um garoto normal, alegre, ativo e muito companheiro para todas as horas. Só tinha uma particularidade, era incendiário. Tinha fixação por atear fogo em coisas. Para esse fim carregava uma caixa de fósforos que surrupiara da cozinha de sua casa. A caixa era o “instrumento” que alimentava a fantasia de pôr fogo nas coisas. Ao brincarmos nos terrenos baldios ou no campo, lá ia o Oblivo colocar fogo nos montes de lixo, nos restos de tábuas velhas ou no capim seco do campo. Onde houvesse fumaça, havia Oblivo por perto. Além isso, ele costumava “pensar grande”, sonhava que um dia provocaria um incêndio de proporções românicas (de Roma, naturalmente), algo que marcasse a história da cidade, um fogaréu, costumava dizer.
Corria o mês de janeiro de 1953, lembro com muita clareza, por que foi o penúltimo mês de minha infância antes de entrar na escola primária, cujo ano letivo iniciaria nos primeiros dias de março. Numa sexta feira à tarde Oblivo estava mais compenetrado e chamou-me para brincar num terreno próximo às nossas casas. Lá sentamos e ele, com ar grave, confessou que havia tomado a decisão de sua vida. Eu meio cismado nada disse, aguardei que falasse. Oblivo, em breves palavras disse que ia tocar fogo numa coisa muito grande nessa mesma noite, o incêndio do século iria iluminar a cidade e agitaria todas as pessoas. Eu não perguntei onde seria o incêndio nem ele falou mais nada, fomos para nossas casas.
Já à noite, depois da janta, nem lembrava mais daquela confidência, minhas prioridades eram outras e fui dormir cedo como sempre, sem maiores preocupações. Lembro que fui acordado por meu pai de madrugada, depois eu soube que eram duas horas da manhã, e todo o céu estava avermelhado pelo fogaréu. A madeireira do outro lado da rua havia pegado fogo, era um incêndio monumental como nunca a cidade tinha visto e certamente nunca mais veria. O fogo era uma coisa viva que se alimentava dos materiais combustíveis da fábrica. De proporções épicas, pois, para uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, estava devorando instalações com cinquenta mil metros quadrados. Os barracões de madeira e todas as máquinas e material inflamável que havia dentro ardia em vórtices de fogo vermelho alaranjado, com explosões ocasionais de tambores de materiais combustíveis. O calor vulcânico faria inveja às fornalhas do inferno de Dante. Fomos levados para o campo que havia trás da vila por precaução, caso nossas moradas fossem atingidas pelas labaredas que não distavam nem dez metros. Roma sentiria inveja das proporções daquele inferno. O fogo durou mais de vinte e quatro horas, ficamos comovidos, amedrontados e maravilhados, coisa única na vida de qualquer um.
O incêndio não ceifou vidas, mas destruiu tudo, da madeireira só restaram cinzas e alguns esqueletos das máquinas que antes produziam os móveis e compensados. Não me lembro de ter visto Oblivo nos dias seguintes, mesmo porque os restos do incêndio ali tão pertinhos e tão interessantes não deixavam a gente desgrudar os olhos daquelas curiosidades inusitadas. Depois de cinco ou seis dias, calhou que nos encontramos, Oblivo e eu, conversamos como se nada suspeito houvesse naquele acontecimento. Eu nada perguntei e ele nada disse, apenas observei que ele estava sem a sempre presente caixa de fósforos. Oblivo, sem qualquer expressão no rosto, disse: - Não a carrego mais comigo, já não gosto. Parece que havia abandonado a piromania que o acompanhara até ali.
O incêndio acabou não trazendo grandes prejuízos para ninguém. A perícia efetuada pelos bombeiros exarou laudo culpando um curto circuito pela deflagração das faíscas que causaram o sinistro. Os Malucelli tinham seguro dos imóveis, das máquinas e do estoque, de modo que, dizem, receberam mais do que valia aquele patrimônio. Os operários foram convocados para limpar os escombros, tirar todo aquele entulho, depois foram incorporados à construção de uma nova fábrica, agora toda de tijolos. Não perderam seus empregos e acabaram trabalhando em instalações melhores, com máquinas novas e mais modernas. A cidade teve assunto para falar por meses ou anos, até hoje alguém ainda se lembra do INCÊNDIO, assim com letras maiúsculas. Oblivo e eu entramos na escola no mesmo ano, estudamos na mesma sala e continuamos amigos, embora nossas escolhas tenham nos conduzido por caminhos diferentes ainda nos vemos de tempos em tempos. Agora ele, aposentado, mora em Irati com suas filhas e netos, e quando nos encontramos, jamais tocamos no assunto incêndio. Diz um provérbio que “não se fala em corda na casa de enforcado”. JAIR, Floripa, 24/04/12. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Terremoto de Lisboa

As grandes catástrofes naturais que atingiram a civilização nas últimas décadas, como vulcões, terremotos, enchentes e tsunamis e até vazamentos de usinas nucleares como em Chernobil e no Japão ano passado, têm sido catalogadas como as maiores já acontecidas desde que o homo sapiens se pôs a registrá-las. Contudo, proporcionalmente, o maior cataclismo já acontecido foi o terremoto de Lisboa de 1755. Em primeiro de Novembro daquele ano ocorreu uma catástrofe tríplice na cidade e seus arredores que, sem qualquer concessão, foi o desastre maior que já atingiu a Península Ibérica. As 9 horas e 20 minutos da manhã a terra estremeceu e fez cerca de 100.000 mortos em virtude dos desmoronamentos, de incêndios que acabaram com o resto que havia sobrado e de três colossais tsunamis que se seguiram. Católicos de todas as cores e de todo o mundo rezaram por Lisboa e os lisboetas, porque a capital de Portugal era (ainda é) uma das cidades mais beatas do Planeta.  
Naqueles tempos ainda existia inquisição na Península, e tanto cristãos velhos como conversos, ou cristãos novos, praticavam um catolicismo de curral que não lhes permitia divergir um cagagésimo sequer dos ritos preconizados pela igreja, sob o risco de enfrentar atos de fé que poderiam até levá-los para a fogueira. Então, era comum os cidadãos encomendarem junto às suas paróquias, para depois da morte, uma infinidade de missas e solicitações de velas e rezas para que suas almas descansassem em paz. Naturalmente todas as missas e velas eram pagas antecipadamente. A inquisição, venal como era, via nessa “devoção” uma fonte de renda copiosa e inesgotável. E os devotos não tinham escolha, suas almas dependiam de seus recursos.
Contudo, para decepção dos católicos que haviam colocados suas fichas nessa loteria póstuma, sua devoção de nada adiantou e Lisboa foi punida como Sodoma o fora nos tempos bíblicos. Ficou registrado que o otimismo gerado pela filosofia de Leibniz, a qual afirmava que “vivemos no melhor dos mundos possíveis” e que havia contaminado as mentes européias, ficou extremamente abalado pelo virtual desaparecimento de Lisboa. O otimismo praticado não previa espaço para destruição de cidades, um acontecimento desses jamais poderia caber “no melhor dos mundos”.
Devemos lembrar que as obras de reconstrução da cidade coordenadas durante o mandato de Marquês do Pombal, eminência parda do reinado do pífio Dom José desde 1746, foram facilitadas graças ao esbulho do ouro vindo do Brasil que permitiu a reconstrução da nova cidade, moderna, no lugar da Lisboa medieval que ainda existia nos finais do século dezoito. A reconstrução da cidade destruída tornou-se uma prioridade quando praticamente nem tinham terminado os tremores, ou seja, já no dia seguinte o plenipotenciário e despótico Marquês de Pombal começou a esboçar ideias para reconstruir aquilo que havia desaparecido e consertar o consertável. A despeito do péssimo juízo que se faz de Pombal pela sua suposta arrogância, por seu mandato ditatorial e pela expulsão dos jesuítas em 1757, é inegável que foi graças a sua energia que se puderam reparar os danos que o sismo havia causado. A história registra que ele começou dizendo "Enterrem os mortos e alimentem os vivos" e, arregaçando as mangas, tornou-se um trabalhador incansável que só parou quando a morte veio ao seu encontro. Em razão de sua determinação e capacidade de trabalho, Lisboa reergueu-se rapidamente e melhorou sob todos os aspectos, tornou-se uma cidade moderna.
Com um sismo de 9,0 graus na escala Richter, (esclarecendo, a escala Richter ainda não existia, mas os geólogos atuais deduzem os valores dos terremotos antigos pelos estragos que fizeram e pelos sinais que deixaram nas camadas do solo) a cidade estremeceu violentamente e começou a desabar como um castelo de cartas. Era dia de todos-os-santos e, por isso, calou fundo no imaginário carola da maioria da população. Nas casas ardiam velas nos oratórios, o que pode ter contribuído fortemente para o incêndio das ruínas causadas pelo abalo. O povão, apavorado pelos incêndios, correu como uma onda à zona portuária, local menos atingido pelas chamas. Foi aí que a coisa ficou mais feia ainda. Um enorme tsunami de mais de trinta metros de altura, galgou as beiras do rio Tejo e invadiu as ruas e casas já destruídas, e, em seguida, no rastro da primeira, vieram mais duas ondas gigantescas. 
Alguns fiéis, genuflexos e consternados, persignavam-se, elevavam os olhares para o céu na vã esperança que uma luz das alturas lhes viesse acudir, mas a massa daquele povo assustado tentou fugir das praias, mas tropeçava nos escombros e caía nas chamas, estava literalmente entre o fogo e o mar ameaçador. E os desabamentos das paredes que restavam, combinado com o fogo apavorante e a água que levava tudo de roldão, fizeram que metade da população da cidade morresse ou desaparecesse.  Montões de cadáveres despedaçados, queimados e afogados atestavam o poder fenomenal dos eventos. Para muitos, aquele Deus vingador do velho testamento julgara Lisboa e a condenara por seus pecados e iniquidades, como outrora fizera com Sodoma.
Contrariamente aos cidadãos comuns e escravos que viviam nas partes baixas da cidade em casas de qualidade inferior, a nobreza, o clero e os áulicos do poder habitavam construções de boa qualidade nas partes mais altas, então não é de estranhar que estes tenham, na sua maioria, saídos incólumes ou tenham tido prejuízos materiais de menor monta, quase sem perdas de vidas. O terremoto de Lisboa fora extremamente indulgente com as classes sociais altas e terrivelmente malévolo com o povão. Pareceu até justiça divina ao contrário. Eu hein! JAIR, Floripa, 29/04/12